Bach e a Geometria da Eternidade

Carlos Neves
📅
7 min de leitura

O Cantor de Leipzig

Quando Johann Sebastian Bach assumiu o posto de Thomaskantor em Leipzig, em 1723, era um cargo que outros músicos mais célebres da época haviam recusado. Georg Philipp Telemann, o mais famoso compositor alemão do momento, declinara o convite. O Conselho Municipal de Leipzig resignou-se: "Já que não podemos ter o melhor, contentemo-nos com o mediano."

A história julgou esse conselho com implacável ironia.

Bach permaneceria em Leipzig pelos últimos 27 anos de sua vida, compondo cantatas semanais para as igrejas da cidade, ensinando latim aos meninos do coral, disputando com autoridades municipais mesquinhas sobre verbas e privilégios — e, nas horas que restavam, criando obras que definem o pico absoluto do período Barroco.

"A finalidade e razão última de toda música não é outra senão a glória de Deus e a recreação da mente." — Johann Sebastian Bach

O Contraponto como Arquitetura

Para entender Bach, é preciso entender o contraponto — a arte de entrelaçar múltiplas vozes independentes que, juntas, formam uma harmonia coerente. No contraponto bachiano, cada voz tem sua própria personalidade melódica, seu próprio arco dramático; e ainda assim, todas se encaixam com uma precisão que parece milagrosa.

As Fugas do Clave Bem Temperado são a demonstração suprema dessa arte. Em cada fuga, um tema simples — chamado sujeito — é apresentado, invertido, aumentado, diminuído, combinado consigo mesmo em versões defasadas (stretto), transformado em espelho. O que parece um jogo intelectual árido revela-se, na audição, algo de uma beleza estonteante: a lógica e a emoção fundidas numa única substância musical.

As Variações Goldberg: Um Universo em 30 Movimentos

Encomendadas — segundo a lenda, pelo conde Hermann Carl von Keyserlingk para ajudá-lo a dormir — as Variações Goldberg (BWV 988) são talvez a obra mais fascinante do repertório para teclado. Sobre uma única linha de baixo, Bach construiu 30 variações de uma diversidade e invenção que desafiam a compreensão.

Há variações canônicas (onde uma voz imita a outra em intervalos diferentes), variações dançantes, variações introspectivas, variações de virtuosismo puro. A última variação é um quodlibet — uma combinação bem-humorada de duas canções folclóricas alemãs da época. E então, depois de toda essa jornada, retorna a ária inicial, agora carregada de uma melancolia suave que não estava ali na primeira vez.

Glenn Gould gravou as Goldberg duas vezes — em 1955 e em 1981 —, e as duas versões são radicalmente diferentes. A segunda, feita meses antes de sua morte, é lenta, meditativa, despedida. As duas juntas formam elas próprias uma espécie de variação sobre Bach.

As Paixões: Teatro Sagrado

As duas grandes Paixões — Segundo São Mateus (BWV 244) e Segundo São João (BWV 245) — são as obras corais mais ambiciosas do Barroco. A Paixão Segundo São Mateus, em particular, exige dois coros, duas orquestras, dois contínuos e solistas múltiplos: um monumento sonoro de mais de três horas que narra os últimos dias de Jesus Cristo com uma intensidade dramática e uma ternura humana que transcendem qualquer fronteira religiosa.

O coral de abertura — Kommt, ihr Töchter, helft mir klagen — com sua marcha pesada de luto e o coral infantil soando distante sobre os dois coros adultos, é um dos começos mais impressionantes da música ocidental. Ouvir essa obra em sua integridade é uma experiência que transforma.

O Redescoberto

Após a morte de Bach, em 1750, sua música caiu quase no esquecimento. Era considerada ultrapassada, demasiado escolástica para os gostos galantes da época. Foram seus filhos — Carl Philipp Emanuel e Johann Christian — que dominaram o cenário musical da segunda metade do século XVIII.

A redescoberta de Bach veio em 1829, quando o jovem Felix Mendelssohn, com apenas 20 anos, regeu a Paixão Segundo São Mateus pela primeira vez após um século de silêncio. O sucesso foi fulminante. A partir daí, Bach ocuparia progressivamente o posto que hoje detém: o de pai fundador da tradição musical ocidental, o Arquiteto Supremo, o compositor sobre cujos ombros todos os outros se apoiam.

Bach Hoje

A música de Bach continua mais viva do que nunca. É ouvida em igrejas e salas de concerto, mas também em algoritmos de inteligência artificial que tentam imitar seu estilo, em transcrições para guitarra elétrica, em samples de hip-hop, em meditações budistas. Sua universalidade não é acidente — é o resultado de uma música que opera em múltiplos níveis simultaneamente: como puro prazer auditivo, como estrutura intelectual, como expressão espiritual.

Glenn Gould disse uma vez que Bach era o único compositor para quem a noção de perfeição tinha sentido concreto. É uma afirmação exagerada — como toda declaração de amor verdadeiro.


As obras de Johann Sebastian Bach fazem parte da programação diária da Rádio Clássica. Ouça o programa "Barroco em Foco" às 14h.

Compartilhe este artigo:

Continue ouvindo

Ouça as obras mencionadas neste artigo ao vivo na Rádio Clássica.

Ouvir Agora
Pausado
Rádio Clássica — música erudita 24h